RETRATO DE UM HOMEM QUE PINTAVA MANCHINHAS
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Estou revendo um velho álbum de família e de repente topo com uma foto, dessas já amareladas pelo tempo. Toda a minha vida, como um flash relâmpago, fixada num instantâneo, estava diante dos meus olhos, despertados por essas doces lembranças.
Meu pai, ainda jovem, estava recostado em uma pequena bancada de pedras, meio de costas, olhando severamente para a câmera; a seu lado, moleque de seus oito ou nove anos, lá estava eu, numa pose igualzinha a de meu pai. Ao lado, meu irmão Denis. Eu parecia em tudo uma fotocópia em tamanho reduzido do adulto. |
Eu despertava para a vida, e com certeza, ainda não conhecia o homem e sua obra. Mas já recebia os primeiros fluídos benéficos da sua sensibilidade, materializada numa atividade frenética sempre voltada para as coisas da arte e da vida.
Era uma alegria enorme ir com ele até o prédio da Gazeta, e lá conversar com seus amigos e colegas, e deles ouvir os maiores elogios a meu pai. Lá estavam o velho Samarco, o Amleto Samarco, com o seu indefectível cachimbo, sereno e fleugmático como um sábio, mas doce como uma criança - Lá estava o Lindenbergh Faria - Ah, o Lindenbergh era um lord inglês com o rosto de indu , no alto dos seus 2m ou coisa parecida, com a sua gravatinha borboleta e as suas palavras cruzadas - e também Zaé Junior, ainda jovenzinho e tido como o galã da turma, conhecedor profundo do Idioma - E lá estava também o Jayme Cortez, óculos de vidros bem grossos para esconder um pouco o seu estrabismo, que era enorme, sempre brincalhão e extrovertido, pronto |
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| para alguma da pesada! Lá estavam tantos, muita gente boa que a memória já me começa a faltar - e todos me tratavam com tanto carinho que já me sentia parte daquele grupo maravilhoso. |
Todos falavam do velho com respeito :
-O velho é o maior!
-Não tem ninguém melhor que teu pai!
-Como ele desenha!
Anos mais tarde, já adulto, eu ouviria do grande ilustrador e quadrinista Jayme Cortez, que ele devia tudo o que sabia a dois grandes mestres do desenho: Coelho, em Portugal e Messias, no Brasil.
Eram palavras tão boas de serem ouvidas, que me enchiam de orgulho e me faziam pressentir que eu estava diante de um homem com algum talento especial, e bem cedo plantaram em minha mente uma decisão definitiva: - eu queria fazer parte daquele universo grandioso, eu queria ser como meu pai!
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Messias à esquerda, Cláudio de Souza ao centro e Amleto Sammarco ao fundo. |
Uma lição de desenho
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Decorridos já alguns anos do seu falecimento, confesso que ainda hoje tento entender esta personalidade original. Nenhum adjetivo seria adequado e qualquer que fosse ele, soaria como algo banal ou empobrecedor.
Ainda me lembro de um episódio ocorrido na minha infância e que me marcou profundamente. Eu tinha lá meus 9 ou 10 anos e já "cometia" meus primeiros rabiscos, sempre supervisionado pelo olhar crítico do meu primeiro mestre (acho que não consegui ter outro). A família toda se preparava para uma festa, daquelas típicas dos anos clnqüenta, e eu então resolvi "aprontar" uma. Resolvi fazer um belíssimo desenho, para impressionar a todos (claro, principalmente as garotas). Então, mãos à obra: roubei um pedaço do melhor papel que o velho tinha, um bom "Schoeller" 4R, catei uns frascos de gouache, escolhi os melhores pincéis, e montei minha trincheira no meu dormitório, debaixo da cama.
Era só o velho sair pro trabalho na Gazeta, e lá ia eu, detonar meu plano secreto. O projeto consistia numa Ilustração a cores de mais ou menos 50x35 cm, mostrando o músico Chopin ao piano, sob a luz de velas, etc., tudo dentro daquele clima exacerbadamente romântico do filme "À Noite Sonhamos", um sucesso comercial na época. Pois bem, à medida que o desenho ia evoluindo, maior era o meu entusiasmo. Um dia antes da festa, eu lá estava diante uma verdadeira "obra-prima-de-beleza-irretocável", de grande maestria, e com certeza... de grande impacto! |
A noite seguinte, a festa corria solta e eu aguardaria o momento certo para executar a minha grande performance. E o momento chegou, como eu esperava, quando meu pai estava numa roda alegre cercado de amigos, parentes e... garotas!
Aproximei-me com meu tubinho de papel e sem dizer uma palavra, fui desenrolando-o vagarosamente diante dos olhos surpresos dos circunstantes que reagiam com murmúrios de admiração diante daquela obra-prima...
-"Puxa, que legal!..."
-"Que maravilha!..."
-Talento, eh?
-Você que fez?..
-Parabéns, é um artista!...
Fosse por educação ou sinceridade, todos reagiam bem diante do trabalho à sua frente; Bem, quase todos... Talvez aquele de quem eu mais buscava admiração e reconhecimento, aquele a quem eu queria mostrar o quanto era capaz um jovem dotado de talento e determinação, permanecia mudo, bem à minha frente, com os olhos fixos no desenho, atento como um cirurgião diante de seu paciente prestes a ser operado.
"De repente, as primeiras palavras, e elas não eram propriamente de elogios:
-"Bem, parece que aqui na mão este dedo não está bem resolvido, e aqui a cabeça não está em equilíbrio com o resto do corpo, e o braço..."
Ele falava serenamente enquanto eu, destroçado e humilhado diante de minha platéia, embrulhava minha obra que quase fora prima e via meus sonhos e fantasias ruírem por terra.
Voltei pra casa arrasado naquela noite... Estava prestes a desistir da carreira de desenhista. Não valia mesmo a pena lutar contra a incompreensão de gente que não entendia o significado de um talento jovem e promissor.
Preparava-me para dormir, quando o velho bate na porta: "Vem cá, filo"...
"Filo" era uma expressão carinhosa que ele usava com tanta doçura, que era difícil nessas horas alimentar qualquer ressentimento, e ele o fazia sempre com um tal brilho nos olhos, que ainda hoje penso que essa é a melhor imagem para definir a bondade.
Ele então levou-me até o seu pequeno atelier improvisado, pegou um pedaço de papel e um lápis e sem borracha, começou a rabiscar, rápido e de memória, exatamente o meu desenho! - Só que o meu desenho ganhava luz, expressão, vida enfim, com um perfeito "chiaroescuro" que ele fazia com a ponta dos dedos e com tamanha agilidade que eu estava tonto, eu queria pedir para ele ir mais devagar, quem sabe eu poderia captar algum truque ou seja lá o que for, mas ele parecia em transe e não podia me ouvir!
Meu Deus, pensei, como alguém pode desenhar tão bem assim!
Eu continuava tão fascinado por aquele momento mágico que mal conseguia entender as suas palavras, que saiam num tom meio cavernoso, quase gutural...
-"Aqui você esboça, assim, - Procura mais equilibrio deste lado - Não se esqueça de construir melhor esta estrutura, e tente dosar melhor estas texturas, e aqui..."
Agora, era eu quem estava literalmente em estado de transe, trabalhara arduamente toda uma semana na tentativa de fazer um trabalho genial, com todos recursos disponíveis, e de repente, em alguns segundos, alguém estava diante de mim, com toda humildade, fazendo uma obra-prlma de verdade.
Quando me dei conta e me refiz do meu estado de catatonla, o desenho estava pronto, e antes que eu pudesse apanhá-lo, guardá-lo e emoldurá-lo condignamente, o velho pousou sua mão, sobre a folha e amassou-a rapidamente...
-Mas, por quê? -Perguntei inconformado.
O velho demorou algum tempo para responder. Primeiro ele tirou lentamente seus óculos, e começou a esfregar os olhos nervosamente. Ele fazia isto sempre que estava numa situação de tensão, como que buscando a resposta inspiradora.Eu nunca poderia esperar dele uma aula acadêmica de desenho, cheia de teorias e fórmulas consagradas de como se deve desenhar bem. Mesmo porque o pai nunca freqüentou qualquer dessas escolas. Ele era um intuitivo, um genuíno amador do que fazia em arte e nunca se deixou influenciar por escolas, tendências, estilos. Por tudo isso, ele também detestava ensinar qualquer coisa relacionada com a arte.
E de repente, a resposta saiu, mansa e serena, inesquecivelmente clara para mim:
-"Porque isto, (e apontava pra folha no cesto de lixo) não tem nenhum valor para você. Só aquilo que você faz com trabalho e amor pode representar alguma coisa pra você é lembre-se sempre, só para você mesmo.Trabalhe muito, muitas horas por dia, não esmoreça nunca e desde que você o faça com muito amor, ninguém fará melhor do que você. |
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| Não se preocupe com o que os outros digam do seu trabalho, não importa, mesmo que seja até eu. Não há nenhum segredo - só trabalhe por amor..." |
Assim era o velho; mais do que com palavras, seus atos eram lições de vida.
Adorava crianças e animais e gente simples e sem afetação.
Caminhava horas e horas pela praia e só parava pra conversar com pescadores, com quem se entendia maravilhosamente. Pintou barcos, e o mar que ele amava tanto, e as mulheres e crianças magras e miseràveis das caatingas que ele tanto conhecia.
Como ele gostava das feiras! Ele as frequentava sempre, perdido no meio da multidão de anônimos e se sentia um deles, tão à vontade que costumava fazer amigos ocasionais nestes ambientes.
Pintou conventos e igrejas silenciosos e solenes, e freiras tristes e solitárias, era homem de extrema religiosidade sem nunca ter pertencido a nenhuma seita religiosa; só pintou o que amou; só o que ele verdadeiramente amou, transformou em arte.
Sua casa estava sempre aberta aos amigos que ele admiravelmente preservou até o fim.
Recebia-os sempre com uma boa garrafa de vinho, que ele sorvia lenta e gostosamente enquanto conversava. Mas nem sempre as coisas eram róseas, e quando o velho ficava bravo, a coisa ficava preta mesmo. Esses momentos eram raros, e só um motivo muito forte podia detonar uma situação dessas. Ainda criança, presenciei um destes momentos de justa cólera que me assustou bastante.
Os retratos dos filhos de dona Mafalda
Para reforçar o pálido orçamento doméstico, o velho resolvera fazer uns "bicos", pintando retratos de encomenda. Ele fazia isso muito bem, e a prova disso é uma tela que ele pintou de sua filha Marlene, recostada num sofá, tendo ao lado o seu violino. O quadro é de uma beleza intensa, todo realizado na técnica da "veladura", e muito fiel à retratada, que ainda hoje preserva essa obra com grande carinho. Pois bem, uma senhora amiga da família, dona Mafalda, encomendara dois quadros a meu pai; Ela queria ver seu casal de filhos retratado pelo
pincél do mestre. Ele trabalhou durante meses nesse projeto.
O primeiro quadro, mostrando o filho, já tinha sido entregue à mulher, que ficara realmente muito satisfeita. O velho começou o segundo, e junto com ele, começaram os problemas.
Pronto o trabalho, a mulher resolveu mudar um pequeno detalhe, se não me engano, incluir uma rosa na cabeça da criança. Meu pai aquiesceu, e acrescentou o apêndice. A velha senhora então resolveu mudar um outro detalhe, e o velho uma vez mais, concordou com a exigência. E assim foi por mais duas, três, dez vezes, até que o bom homem viu sua paciência esgotada, e decidiu então submeter o trabalho à velha senhora uma última e derradeira vez.
Isso posto, o velho convida dona Mafalda para a apresentação final em seu atelier. Ele tinha colocado um pano sobre a tela, assim pra tornar a coisa mais solene. Sem dizer uma palavra, ele descerra lentamente o pano diante da mulher, que permanece impassível, sem reação. Meu pai aguarda pacientemente alguma manifestação e nada. Minha mãe, ansiosa pela perspectiva de uns trocados que viriam a reforçar o orçamento doméstico, não conseguia dissimular a aflição diante da mulher imperturbável.
-Dona Mafalda, interrompe meu pai, a senhora gostou...?
A mulher continuava petrificada como uma estátua, olhos cerrados. Alguma coisa ainda não lhe agradava. Eu então já havia parado de fazer meus rabiscos no chão, e observava a cena, atentamente. Olhava para o meu pai cujo rosto agora começava a ficar vermelho. Quando isto acontecia, nós já sabíamos que vinha tempestade pela frente. O sangue parece que se concentrava apenas no lado superior da fronte, criando uma faixa vermelha, nítida, na sua testa. Minha mãe então, em tom conciliador, tentou intervir:
-"Bem, Dona Mafalda, eu acho que a tela está bonita e que as cores estão...
- Não, dona Eurídice, não está parecido com a minha filha.
E começou a alinhavar um rosário de inúmeros defeitos e junto, acrescentava um punhado de exigências:
_Quero que o Messias mude isto, e isto aqui, mais acolá e isto e aquilo, etc, etc.....
Eu e minha mãe, perfilados diante do pai, indagávamos em silêncio o que deveria estar ocorrendo em sua mente, naquele instante.
De repente, ele interrompe a mulher, com decisão:
-"Não, Eurídice, não adianta...ela não gostou do meu trabalho."
E dando um passo para trás, desferiu um violento soco na tela, exatamente no lugar do rosto da retratada, causando um enorme rombo no quadro, e fazendo a mulher se retirar em louca debandada".
Nossa casa, que era sempre muito barulhenta, com uma irmã estudando piano e outra violino, de repente, silenciou. Eu podia ouvir o som de uma mosca ou de um passarinho a dois quarteirões de distância. Agora, o alvo central de todas as atenções era meu pai, que já retornara ao seu estado de equilíbrio emocional. A cena então passou a ser compartilhada pelas minhas duas irmãs e pelo irmão Denis que vieram atraídos pelo
barulho do soco. O velho então acendeu um cigarro, limpou tranqüilamente as mãos com um pano, e começou a fitar a estranha imagem de uma menina sem cabeça. Primeiro esboçou um sorriso tímido, quase tristonho, depois um riso mais franco e aí então ele explodiu em uma gargalhada tão grande que até despertou o Tony, nosso velho cão de estimação que dormia placidamente em sua casa lá no fundo do quintal.
Quando dei por mim, todos ríamos juntos numa loucura geral, compartilhada até pelo Tony, que latia e saltava histericamente, como que querendo participar da folia.
Assim o velho superava suas crises. Mas eu não me lembro de ele ter voltado mais a pintar retratos de encomenda.
BRUTUS
A casa grande de Santana vivia sempre povoada de animais. Eram patos, galinhas d'Angola, coelhos, gatos e, claro, nossos prediletos, os cachorros. Lembro-me de uma porção deles; Toni, Rex, Bob, Lilita e o Brutus. A cada morte desses amigos fieis, seguiam-se sempre as lamúrias da minha mãe, prometendo que não haveria mais cachorros na casa. Sofríamos com a perda de cada um como se fora um membro da família.
Mas mal passado o luto, lá estava uma nova criaturinha peluda a abanar o rabinho para a alegria de todos.
Mas Brutus era diferente. E foi nosso último cão.
Brutus impressionava os incautos pelo seu tamanho enorme. Quem topasse com aquele imenso dinamarquês branco com manchas e olhos cinzentos, uma enorme cabeça e dentes que se assemelhavam a presas de alguma fera selvagem, recuava aterrorizado. Não raro, visitas saiam em desabalada carreira ao abrirem o portão e toparem com aquele bicho enorme a sua frente.
Mas Brutus não correspondia a essa imagem. Era pura docilidade. Agüentava toda sorte de torturas infantís com resignação franciscana. Cavalgávamos em seu lombo, pendurávamos em seu pescoço, puxávamos as suas orelhas e a tudo ele reagia com brandura, o que nos levava a crer que ele até compartilhava desses folguedos alegremente. Guardo uma foto dessas maldades de infância em que apareço aplicando uma "gravata" no cão. A impressão que tenho até hoje ao ver essa foto, é que Brutus está sorrindo.
Um dia, porém, aconteceu uma coisa muito estranha com ele.
Era uma noite quente de dezembro e a rua estava cheia de gente. Cadeiras nas calçadas, casais conversando, crianças correndo, música no ar. Uma festa com muito barulho. Elenice e Dirce eram duas irmãs que moravam na vizinhança e se divertiam, correndo e gritando. O portão da nossa casa estava aberto, como ficava de hábito. Brutus raramente ultrapassava esse portão, como que sabendo os seus limites. Mas naquela noite, nós não nos demos conta quando ele saiu em desabalada carreira e cravou seus enormes dentes nos glúteos da menina Elenice. A duras penas, conseguimos afastá-lo de sua presa.
O pânico se instalou naquele trecho da Rua Benta Pereira. Mulheres gritando, crianças correndo em todas as direções, gente chegando de todos os lados, uma barafunda total. O ruído não chegava ao atelier do pai, um quarto no fundo da casa onde ele costumava trabalhar com a porta fechada e seu rádio ligado. Nessas horas, ele se desligava do mundo, e muitas vezes minha mãe tinha que dar violentas pancadas na porta para chamá-lo ao jantar. Naquela noite, ele desenhava uma das páginas de quadrinhos para a editora La Selva, Oscarito e Grande Otelo e devia estar muito concentrado no seu trabalho, pois não ouviu os ecos que vinham da rua.
Enquanto todos socorriam a pobre Elenice, pálida como um lençol, seu pai, um militar aposentado, dirigia-se ao portão da minha casa com um revólver na mão e decidido ao pior. Com a coragem de todas as mulheres, minha mãe interceptou o brucutu e exortou-o a se retirar de lá. Ele queria descarregar a sua arma no meu pai, que mal sabia o que estava ocorrendo lá fora. Com firmeza, minha mãe tentou convencê-lo a não fazer aquela besteira, que ela pagaria todas as despesas do hospital ,etc, etc. Falou, falou, mas o sujeito não arredava o pé dali e cada vez ficava mais inflamado. Até que, finalmente, a minha mãe conseguiu persuadi-lo com uma promessa que soou como uma sentença para o Brutus, e que fez o homem se acalmar e ir embora: ela daria o cão para alguém longe dali, de forma que eles não teriam mais a "ameaça" por perto.
E foi de fato o que aconteceu. Minha mãe doou o Brutus para uma amiga, senhora japonesa que morava numa rua paralela à nossa e que prometeu tratá-lo bem.
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Durante muitas noites, apesar da distância, ouvíamos o uivo lancinante do pobre Brutus, que não resistiu à separação e morreu algumas semanas depois.
Nessa época, eu começava fazer os meus primeiros estudos de modelo vivo em desenho e fiz diversos esboços a lápis do Brutus que guardo até hoje, como uma homenagem merecida a esse meu amigo verdadeiro.
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As férias de meu pai.
Sua generosidade era derramada igualmente a todos que o cercavam, mas com seus filhos ela ia a limites extremos, quase à renúncia.
Acho que uma pequena história da qual participei como personagem, ilustra bem este seu traço de caráter. Durante muitos anos o velho fez da Gazeta o seu trabalho e segundo lar. Ele não só gostava muito desta casa, como também adorava seus colegas, muitos dos quais se tornaram verdadeiros amigos.
Concluído o seu trabalho, ele costumava descer ao térreo, e quase que como num ritual, postava-se em frente à porta de entrada, e com seu cigarrinho na boca, jornal dobrado sob os braços, cumprimentava a todos, conversava longamente com amigos e conhecidos e não se retirava dessa trincheira antes que o prédio estivesse às moscas.
Ele me levava constantemente a seu posto de trabalho, no quinto andar, onde fazia diariamente a sua charge esportiva. Lá, numa pequenina sala com uma mesa enorme no centro, com uma poltrona ao lado e um pequeno armário, ele costumava chegar bem cedo, abrir o jornal e lê-lo por inteiro, enquanto aguardava o assunto da charge, que era preparado pelo Sr. Nelli, então diretor do jornal.
Quando este chegava, meu pai começava rápido a traçar a charge. Ele fazia seu trabalho de gravata, imperturbável; Trabalhava sem nenhuma referência de material. Traçava tudo de memória, fosse um periquito, um macaco ou um mosqueteiro, um foguete espacial ou qualquer bicho exótico de algum país longínquo.
Confiava apenas na sua memória visual, que era um arquivo fantástico. Usava um lápis duríssimo e quase não usava borracha. Terminado o traçado a lápis, ele começava a pintar com nanquim preto, usando geralmente um pincel bem ordinário fornecido pela casa. Seu traço era extremamente elegante e eu, garoto ainda, me perguntava como ele conseguia extrair tanta beleza, com um material |
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tão precário; este era um dos seus segredos - ele abria os pêlos do pincel,
que ficavam tal qual uma vassoura velha, e esfregava-os sobre uma superfície, e com o que restara desta ferramenta de trabalho, ele conseguia extrair os mais belos efeitos de pincel seco que eu jamais vi depois.
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Eu observava fascinado o resultado e imaginava quando poderia fazer alguma coisa parecida. E este dia chegou.
-"Você quer fazer a charge?"- Perguntou-me.
Quase tremi de emoção. Claro que eu queria. Ela era lida por toda a cidade e isto representava muita responsabilidade.
-"Pois amanhã então você começa".
Ele entrara de férias e não queria que o jornal ficasse sem a charge diária, que ele tanto gostava.
No dia seguinte, lá estava eu, no agora "meu" posto de trabalho. Fiz tudo certinho. Tentava reproduzir o traço do velho, para não aparentar mudança de estilo na charge. Assim foi no primeiro, terceiro, décimo dia. Em casa, o velho ia fazendo as correções, criticando uma coisa ou outra, sugerindo, e às vezes, até elogiando! Isso me
dava coragem pra eu ir em frente. Tudo ia muito bem, pelo menos para mim. Até que um belo dia, o "sêo"
Nelli irrompe na pequena sala, sempre seguido de seu séquito de auxiliares e em tom inquisitivo dispara:
-"Menino, preciso falar urgente com o Messias! -Quero ele amanhã aqui ".
Pelo tom de voz, pressenti que alguma coisa não ia bem. Na manhã seguinte, interrompendo as suas férias, lá estava o velho novamente no seu posto, à espera de uma possível tempestade. E ela chegou com o "sêo" Nelli. Ele entrou, cumprimentou secamente o meu pai, ignorou-me totalmente, e rapidamente foi ao assunto. Disse que sentia que a charge não estava boa nestes últimos dias, que o desenho não era o mesmo, que a qualidade tinha que ser mantida a qualquer preço, pois o leitor era exigente e usava todos os argumentos possíveis para tentar demover meu pai daquela idéia maluca de deixar um pirralho fazer um trabalho tão importante!
Meu velho ouvia a tudo impassivelmente. Quando cessou todo o arrazoado do diretor, cansado de tanta argumentação, meu pai foi até o armário e de lá tirou duas charges, colocando-as sobre a mesa.
Apontando para ambas perguntou:
- Sêo Nelli, o senhor consegue dizer qual das duas é a minha ?
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O imenso homem de quase dois metros estancou, coçou a cabeça, pigarreou, olhou pra uma, olhou pra outra, e não conseguia se decidir. Passaram-se alguns segundos de silêncio absoluto na sala, até que meu pai, apontando firmemente para uma das charges, disparou. |
-Pois bem, sêo Nelli, esta é a minha!
O homem então apanhou a charge indicada, e em tom triunfante, abrindo um largo sorriso começou:
-"Ah, Messias, mas é claro! Esta é muito superior ! Você sabe muito bem que esta é a melhor, é a melhor em tudo, como desenho, como nanquim. Veja esta linha aqui - e veja esta figura adiante..."
E ele falava, e aumentava o volume da voz que já soava quase intimidadora naquela pequena sala, e a cada momento e a cada palavra, meu pai, que era de baixa estatura parecia que ficava ainda menor diante daquele homenzarrão. De repente, meu pai, com um sorriso maroto e com um tom de voz tão baixo que quase se tornou imperceptível, interrompeu O homem no meio do seu arrazoado:
-Seo Nelli, eu mostrei pro senhor a charge que meu filho Daniel fez...
Não sei se o seo Nelli ficou muito convencido deste argumento, não. Sei que continuei fazendo a charge por mais alguns dias, até o final das férias do meu pai.
Um dia desses, remexendo meu baú de memórias, topei com uma dessas charges "cometidas" nas férias do meu pai. Depois de muitos anos, sou obrigado a reconhecer que o diretor estava coberto de razão, e que o homem foi vítima de um enorme blefe. Mas como o velho foi indulgente com o filho!
O rei do lápis
1953 foi um ano muito difícil para todos nós. O parco salário que o velho recebia então da Gazeta, mal dava para o sustento básico da família, aumentada agora com dois membros - o Múcio e a Marlene, irmãos temporões da minha mãe, entregues à sua tutela pelo meu avô Araujo, que velho e falido não tinha a menor condição de sustentá-los. Apesar de toda esta dificuldade, não faltava estudo aos filhos; freqüentávamos todos o colégio Salete gratuitamente, através de bolsa concedida pelo seu diretor, Dr. Hélvio.
Essas bolsas de estudo eram renovadas anualmente e era sempre o mesmo ritual: minha mãe fazia-nos vestir a melhor roupa, preparávamo-nos como se fossemos à alguma festa ou cerimônia importante e rumávamos para o colégio. Minha mãe esperava horas para ser atendida. Quando chegava a hora, entrávamos na sala, e ali, diante do diretor, perfilávamos minha mãe e mais seis crianças à espera da benevolência do homem. Ela então usaria todos os argumentos possíveis para tentar convencê-lo a renovar a bolsa de estudos. Do outro lado, o diretor retrucaria mostrando a dificuldade em fazê-lo, vinha a réplica, a tréplica e não sei o que mais, até que para a felicidade de todos, o diretor acabaria cedendo e aprovando a benesse até o próximo ano, quando então se repetiria o ritual.
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Minha irmã mais velha, a Norma, já se preparava para o casamento no fim do ano, e isso representaria um gasto adicional no orçamento do velho. Para agravar a situação, ele tinha feito uma enorme reforma na casa, que custara os olhos da cara. Enfim, o orçamento estava deficitário! O velho então decidiu que tinha que fazer qualquer coisa pra criar um reforço de caixa.
Era véspera do Quarto Centenário da cidade, e a prefeitura preparava-se para inaugurar o Parque Ibirapuera em grande estilo. Planejavam-se feiras, concertos, descerramentos de placa, discursos e mil eventos festivos - e havia também as exposições; ah, era disso que o velho gostava. |
Naquela época, os stands das empresas eram entregues a um artista, ou grupo de artistas que faziam todo o projeto: do croqui inicial ao stand pronto. O velho, então, uniu-se ao Zé de Andrade, seu amigo inseparável, que ficava responsável por toda a parte administrativa: contratava e pagava marceneiros, pintores, pedreiros, eletricistas, etc, e ainda dava uma mãozinha na pintura dos painéis. Meu pai, que detestava essa parte administrativa, ficava responsável pelo setor artístico: fazia os croquis, ampliava o desenho para a escala natural, pintava, fazia letreiros, enfim, dava o tom artístico ao stand... Embora ele ficasse meio escondido nesse processo, era disso que ele gostava, Ele adorava ficar horas e horas, traçando figuras com um carvão fino preso a uma haste de madeira, deitar no chão e pintar as mais variadas formas em folhas enormes de papel, contando e ouvindo piadas e imitações do Zé e de todo o pessoal da equipe, com quem ele se entendia tão bem.
| Só parava esporadicamente, para comer uma empadinha ou um pastelzinho que a esposa do Zé trazia. É claro, não faltava nunca um estoque bom de cerveja gelada. Muitas vezes, ele ficava tão envolvido nesse trabalho, que varava a noite inteira (para a preocupação da minha mãe que não conseguia dormir) e só voltava pra casa na tarde seguinte, depois de ter cumprido o seu expediente na Gazeta. Como ele tinha uma saúde de ferro (apesar do cigarro inseparável) e estava muito feliz com o trabalho, minha mãe não se preocupava tanto, ao contrário, fazia até planos secretos para estabilizar de vez o orçamento da casa. E foi assim durante o ano inteiro: era a Gazeta, o Ibirapuera, a Gazeta, voltava para o Ibirapuera, e no intervalo ele ainda conseguia arrumar tempo pra um serviço extra: a decoração para um baile de carnaval ou uma festa Junina, ou uma ilustração qualquer de encomenda. |
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Messias, à esquerda, Zé Andrade à direita e o
alemão Hofman ao fundo pintando um painel. |
Dormia três ou quatro horas no máximo. Aproximava-se o final do ano e também dos trabalhos, e com ele, a perspectiva redentora de sair do atoleiro financeiro em que nós nos encontrávamos.
O empreiteiro do trabalho, um então político que mais tarde se tornaria prefeito resolveu dar uma festa de confraternização pelo final das obras. Uma imensa platéia lotava o pavilhão do Ibirapuera. À mesa, sentava-se meu pai de um lado, do outro o Zé de Andrade e o futuro prefeito no meio, que iniciou a apresentação dos "astros" da festa. Primeiro, ele se referiu ao Zé:
-"Meus senhores, senhoras...etc., etc., quero vos apresentar um grande artista, um homem de notável talento, responsável pela beleza desta decoração e pela arte destes painéis..."
E dissertou longamente sobre as imensas virtudes artísticas do humilde obreiro. Ao lado, é claro, o Zé de Andrade ouvia a tudo com indisfarçável vaidade. Meu pai, acotovelado ao lado, escutava surpreso à revelação de tais dotes, até então desconhecidos por ele. Findo o belo arrazoado de nobres elogios, o homem virou-se em
direção à meu pai e arrematou :
-" E deste lado, Messias de Melo..." (e aí fez uma pausa, como se, esgotados os argumentos, não se lembrasse de mais nenhum para qualificar o homem que mal conhecia).
-"0...0... Rei do lápis!" - e concluiu.
Meu velho confidenciou mais tarde para alguns amigos, em tom de chacota, que temia que algum incauto viesse a lhe fazer alguma encomenda desse material.
Ficou combinado com os organizadores da exposição que o acerto de contas seria feito apenas ao final dos trabalhos, e por incrível que isto possa parecer hoje, meu pai aceitou as condições.
0 velho recebeu o dinheiro devido, um pacotinho de notas, e tal como lhe chegou as mãos, entregou-o à minha irmã Norma, como presente de casamento, que com ele construiu a sua casinha. 0 velho não tirou um centavo sequer do maço. Minha mãe aprovou com alegria o gesto. Mas teve que adiar para o ano seguinte o projeto de estabilização do orçamento doméstico.
Cinema nacional
Cinema era uma de suas grandes paixões, e ele era um freqüentador assíduo dos cinemas do bairro. Não perdia um filme sequer e guardo na memória ainda, como nós, as crianças, esperávamos até altas horas da noite o casal chegar com os "bolinhos nenês" ainda quentinhos da Padaria Polar. Nessas horas, quase como um ritual antes de deitarmos, ele costumava imitar o ator do filme, gesticulando freneticamente e ajeitando o seu chapéu à maneira de um Humphrey Bogart ou Peter Lorre, voz gutural e cigarro no canto da boca como John Wayne e outros que faziam parte do seu repertório. Nós não conhecíamos esses atores ainda, mas já tínhamos outros ídolos em nossa galeria infantil, como Carlitos, o Gordo e o Magro, Harold Loyd, Pica-Pau, o Ursinho Panda, e outros, cujas imagens víamos projetados nos lençóis pendurados nos varais da casa.
Eram uma festa indescritível essas sessões de "cineminha". Com sua paixão pelo cinema, o pai acabou comprando um projetor de 16mm sonoro, e alugava esses filmes nas lojas da cidade. O quintal da casa ficava coalhado de crianças da vizinhança naquelas noites de sábado.
A coleção de câmeras e projetores aumentava com a paixão do velho por essa arte. São relíquias guardadas até hoje pela família, câmeras fotográficas Rolleyflex, Flexaret, Nikons, projetores e câmeras de cinema.
Mas o pai não queria só assistir aos filmes; ele também queria fazê-los. Formou, então, um grupo com amigos do jornal A Gazeta e eles começaram a realizar uma série de pequenos filmes com a duração de dois a três minutos; eram deliciosas esquetes, brincadeiras de aficionados e amigos que, mais que qualquer outra coisa, queriam apenas se divertir.
Mas uma dessas comédias de autor quase terminou em tragédia, segundo o relato do ilustrador Jayme Cortez, que fazia parte do grupo de cineastas.
A equipe já tinha preparado o script do novo filme e até escolhido o local, uma praia pouco povoada no litoral paulista. A história tinha lances cômicos à maneira dos curtas do cinema mudo, com vilão e mocinho, tiros e pancadaria e tudo regado a pinga, que ninguém era de ferro. Em uma das cenas, justamente aquela que viria a trazer os mais graves problemas, o mocinho tenta se desvencilhar das cordas que o atavam aos trilhos do trem. Tudo tinha sido bem planejado e a informação era que o trem nunca passava no horário previsto. Como ainda faltava mais de uma hora para que ele chegasse à estação, começou-se a filmar o ator que se contorcia num tremendo esforço para se livrar das cordas. Diversos "takes" eram tomados com closes, planos americanos, big close-ups. Tudo com bastante calma, mas para o desconforto do "ator", o gordo Zé da Preferida, que havia sido amarrado de verdade, para simular maior realismo à cena. Meu pai registrava tudo com a sua Paillard Bollex 16mm, e não se deu conta da algazarra que se criou subitamente à sua volta: lá adiante, na curva que os trilhos faziam em torno do morro, a uma distância de uns 200 metros surgia resfolegante a silhueta de uma Maria-Fumaça, caminhando implacavelmente na direção do ator Zé da Preferida. Correria geral, desespero, uns tentavam cortar a corda, enquanto outros lutavam obstinadamente para desatar os nós, com o valente mocinho gritando em desespero. Bem, na realidade, eles não conseguiram livrar o Zé das cordas, mas também não teria sido necessário. A pequena locomotiva foi diminuindo a sua velocidade até parar totalmente a uns vinte metros de distância da cena. Dela desceu o seu motorista, com uma aparência de sujeito simples do interior e caminhou em direção àquela platéia lívida e atônita. Até que ele parou, cuspiu para o lado e ajeitando o boné, sapecou com aquele sotaque inconfundível:
- Cinema nacionar, eh?.....
Embora tenha conservado a maioria dos filmes que o pai fez da família, não tenho nenhum desses curtas divertidos, esse registro das investidas cinematográficas desse grupo e também desconheço o paradeiro dessas fitas.
Mas tenho uma enorme vontade de revê-las..
As manchinhas
Não conseguia alimentar vaidades; por isso, não costumava guardar os trabalhos originais, achando que eles não tinham valor. À duras penas, a família conseguiu, ao longo desses anos todos, salvar do esquecimento eterno, um ou outro testemunho do seu enorme talento. Digo mesmo salvar da ruína, porque de tempos em tempos, parecia que uma fúria auto-destrutiva e avassaladora o acometia, e ele se punha a rasgar velhos originais, telas esquecidas pelo tempo, esboços e estudos incompletos, charges, etc. ..E aí se nesse momento não tivesse alguém da família por perto para intervir prontamente, o destino final da obra seria fatalmente um monte de papel picado na lata do lixo. Vi muitas vezes minha mãe flagrando-o no ato predatório. Nessas ocasiões, ela costumava admoestá-lo com tal severidade, que mais parecia uma mãe passando uma reprimenda no filho que acabara de praticar uma grande molecagem.
Ele reagia sacudindo os ombros com indiferença:
-É tudo porcaria... Não tem nenhum valor. Além disso, preciso dar uma organizada nesta bagunça.
Não adiantavam discursos, ponderações, argumentos possíveis para tentar demovê-Io de tal ato de barbárie; no dia seguinte, lá ia eu a seu atelier e a visão apocalíptica estava bem na minha frente: pilhas de papel picado no chão, na lata de lixo, sobre sua mesa de trabalho!
Seu pequeno acervo ficava menor a cada dia, pois como o velho era incapaz de dizer "não" a qualquer pessoa que lhe pedisse um original, era freqüente a gente ver sair do seu estúdio, crianças da vizinhança, o velho barbeiro da esquina, senhoras virtuosas da Federação Espírita (para quem ele fazia trabalhos de caridade), estudantes e professores de comunicação, amigos velhos e novos amigos, todos felizes empunhando alguma obra gentilmente cedida pelo artista.
Assim, pouco material original ficou em mãos da família. Tivemos de disputar corpo a corpo, cabeça a cabeça, com toda essa imensa legião de afortunados, uma ou outra relíquia. Mas alguma coisa salva desta verdadeira diáspora vale a pena ser vista e sentida atentamente, e atestam quanto O Mestre, felizmente, estava enganado na apreciação do seu próprio trabalho.
Agora mesmo, diante de mim, tem uma dessas pequenas preciosidades pendurada na parede do meu quarto. É um pequeno quadro a óleo, uma "manchinha" como ele costumava chamar uma tela pintada no próprio local.
O quadro mostra uma olaria velha e em ruínas, como tantas que existiam na periferia da cidade nos finais da década de quarenta. Os tons predominantes são grises rebaixados e um pouco melancólicos. O céu é pesado e nebuloso, criando uma atmosfera opressora. Não existe sequer uma cor quente, alegre, com finalidade apenas
decorativa. Seria um quadro quase triste, a não ser por um pequenino detalhe, um verdadeiro achado de mestre: -uma das muitas faces desta velha olaria, recebe, não sabemos de onde, um tênue raio de luz, apenas uma pincelada seca de um tom mais claro, que ilumina grandiosamente toda a tela, transbordando dessa pequenina parede para o chão, depois para o campo ao fundo e então para toda a imensidão do céu infinito. É espantoso perceber como um trabalho tão despretensioso pode despertar tão grande sensação de otimismo, de alegria de viver.
Meu velho mestre adorava pintar estas "manchinhas". Eu mesmo, ainda criança, acompanhei-o em algumas dessas jornadas. Nessas ocasiões, ele costumava sair de casa bem cedinho, para pegar a melhor luz do dia. Levava um pequeno cavalete dobrável, uma caixa de tintas (que eu guardo até hoje), pincéis, solventes e um banco de madeira também dobrável. Dividia com ele (não sem certa relutância) a tarefa de carregar um fardo tão pesado. Não era difícil pra ele encontrar um bom motivo para pintar; qualquer casa velha e abandonada, ou uma árvore de grandes troncos, ou ainda algum muro alto e em ruínas, ou também uma igreja antiga e pronto, lá estava ele armando seu cavalete pronto pra começar o trabalho...
Lembro-me de uma vez que ele resolveu pintar uma aquarela debaixo de um viaduto que atravessava o rio Tietê. Quase fui devorado pelos mosquitos que já infestavam aquela região, mas ele concluiu seu trabalho com impassível serenidade. Ele costumava trabalhar rápido, para evitar a secagem da tinta. O cheiro forte do óleo impregnava o ambiente, mas acho até que ele gostava muito deste odor, pois era capaz de discorrer horas e horas sobre as maravilhas desta ou daquela cor, que misturada com esta outra daria uma terceira, e assim ia ele, trabalhando e falando, sempre incansavelmente até o fim da obra. Às vezes ele intercalava todo esse arrazoado com uma música que ele gostava de cantar ou assoviar "J'etendrai", uma canção francesa da época.
Ele começava uma tela sempre pelos contornos gerais do tema. Não o fazia com lápis, mas com pincel, em geral com uma cor escura, meio sépia, meio terra de siena. Se alguma coisa não lhe agradava, ele então apagaria estes traços com um pano embebido em água-raz ou querosene, e tornaria a fazer novos contornos. Feito isto, ele começava rápido o trabalho de aplicação das cores, começando sempre pelas mais escuras, depois pelos tons médios e finalmente chegando aos mais claros, os brilhos e as luzes.
Neste processo, ele costumava trocar rapidamente os pincéis, atirando os mais usados dentro de um pote com solvente, com certeira pontaria |
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.Às vezes, ele usava o cabo desses pincéis à guisa de estilete, para obter um efeito de algum fio ou corda, raspando a tinta. Nada podia perturbá-lo nesse estado de êxtase puro, e muitas vezes eu fazia perguntas a ele que ressoavam no vazio. Não que ele não quisesse responder, é que ele não me ouvia mesmo, concentrado nestes momentos de criação, ele também acabava por criar as respostas às muitas indagações, que povoavam a minha mente de criança. Ainda hoje me surpreendo, vez ou outra, descobrindo um detalhe, uma resposta perdida no tempo ou a solução de um enigma deixado pra trás no esquecimento.
A volta para casa era sempre uma festa pra mim, pelo menos; pra ele, às vezes. Quando ele não gostava do resultado, nada de canções ou assovios, e nada de conversa também. O clima era pesado até chegar em casa, quando então, ele penduraria a tela sobre um novo cavalete, e recomeçaria todo o trabalho, até ficar
completamente satisfeito com a pintura. Ah, mas quando ele gostava do resultado, que alegria! Como era
bom vê-lo assim feliz, tagarelando sobre o trabalho do dia e sobre novos projetos, contando histórias, fazendo imitações, enfim, despejando alegria por todos os poros. Nessas horas, eu costumava Interromper a falação com uma pergunta seca:
-A tela ficou boa né, pai?
Ele então disparava uma larga gargalhada e afagava minha cabeça , em tom de cumplicidade.
NO MEIO DO CIGARRO.
Em um domingo, o meu irmão Denis subiu esbaforido as escadas do casarão e, bíblia à mão, bateu na porta do atelier do pai com grande estardalhaço. Ele acabara de chegar da escola dominical e, pelo clima, teria alguma coisa importante para anunciar ao velho. A porta se abriu e meu irmão penetrou no quarto em meio a uma fumaceira danada proveniente dos cigarros.O velho fumava muito, por vezes, acendia um cigarro com o fogo que restara do anterior, dois, três e até quatro maços por dia. Não tinha predileção por marca alguma. Desde que soltasse fumaça, ele tragava de bom grado. Era Beverly, Hollywood, Rodeio, Mistura Fina, Yolanda e outras de menor categoria. Apesar de socialmente menos policiada, a vida dos fumantes já começava a ser importunada pelos cultores da saúde.
Tentando afastar a fumaceira para enxergar melhor o pai, meu irmão perguntou :
- Pai, sabe o que o pastor disse hoje no culto, sobre as pessoas que fumam?
- Não - respondeu o velho.
-"Ele disse" - e ai ele pegou um lápis sobre a mesa para desenhar melhor a sua idéia do cigarro - "que em um lado está o fogo e no outro, o bobo". E riu gostosamente.
Meu pai pegou o lápis, e indicando a posição para o menino:
- E no meio, está a mãe dele..."
Minha mãe, que acabara de entrar na sala lançou um fulminante olhar de reprovação ao meu pai, que olhava para o meu irmão com uma expressão de estupefação de alguém que falou alguma coisa sem sentido e inconveniente e se desculpava por isso, meu irmão olhando para minha mãe como que não entendendo nada, mas se divertia muito com a situação.
A verdade é que o pai resolveu ir ao médico da família, o doutor Fattore, que foi categórico:
- Você morre em três meses se não largar o cigarro imediatamente.
Meu pai, que não pretendia morrer nem tão cedo e muito menos em três meses, conseguiu abandonar o vício definitivamente. Mas, pelo sim ou pelo não, resolveu preparar definitivamente o seu inventário, dividindo entre os seus filhos todo seu patrimônio de fotografia: projetor, fotômetro, câmera e outros objetos.
Ele deixava como espólio, todo o equipamento de cinema e fotografia que possuía, mas que, tudo somado, ao preço de hoje, não compraria um simples computador. Mas essas bugigangas todas foram-me muito úteis quando comecei a fazer animação e mesmo anos depois, quando montei o meu estúdio. Por isso, foi a mais valiosa das heranças que ele poderia ter deixado ao seu filho.
Os Painéis
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Esboço inicial para o mural da Gazeta .A obra completa tinha dimensões gigantescas. Detalhe. |
Uma das coisas que o pai gostava de fazer era pintar grandes painéis, fossem relativos às “Corridas de São Silvestre" , que mostravam o enorme rosto do fundador Cásper Líbero, quer fossem os feéricos painéis dos clubes que ele pintava para as festas juninas e Carnaval , ele se sentia muito à vontade trabalhando com figuras de dimensão muralista.
Por isso, ainda me lembro com que paixão ele se entregou ao novo projeto da Gazeta, um enorme mural mostrando imagens relativas à invenção e evolução da imprensa . O painel, que media mais de vinte metros por uns cinco de altura, fora encomendado pela direção da Gazeta e faria parte do hall de entrada do jornal, que inaugurara a sua nova sede na avenida Paulista.
À época, eu já tinha sido mordido pelo micróbio da animação, e dedicava meu tempo integral à nova atividade, mas assim mesmo, pude acompanhar todo o processo de criação, os primeiros esboços em carvão, seguido de infindáveis estudos a cor que ele realizou, depois os esboços quadriculados já na proporção final do mural definitivo e, finalmente, o trabalho de pintura na parede com uma tinta especial que ele mesmo preparou.
O painel durou, enquanto durou o jornal. No final da década de 60, entretanto, a Fundação Cásper Líbero começou a vazar água por todos os lados e a nave começou a afundar. Empregados antigos eram dispensados, dramas familiares advindos dessas dispensas mostravam um quadro nada animador. Nós chegamos a temer pela sorte do pai, pois sabíamos o que significava aquele trabalho para ele. Como ele conseguiria lidar com a nova realidade, caso algo mais drástico acontecesse. Para a sorte de todos, entretanto, a transição foi muito suave. O pai já havia solicitado a sua aposentadoria, que saiu junto com o desmoronamento da Fundação, que foi vendida ao Grupo Folhas.
O velho passou, então, a viver exclusivamente para as suas telas e não passava um dia sem que trabalhasse em uma delas.
O painel que o pai pintara foi destruído, junto com o muro que o ostentava.
A noite da premiação.
Era totalmente indiferente a prêmios, homenagens ou troféus. Missão impossível era tentar convencê-lo a participar de uma dessas reuniões. Sua extrema timidez impedia-o de participar de qualquer ato público, criando algumas vezes até situações embaraçosas.
Certa vez, um conhecido marchand de São Paulo, dono de uma galeria, resolveu fazer uma mostra sobre seus trabalhos (contra a vontade de meu pai). Organizou tudo, providenciou os convites, impressos a cores, publicidade na Imprensa, tudo enfim. A vernissage foi bem. Muita gente, conhecida ou não, parentes, amigos, críticos, algumas , muita bebida - tudo perfeito!
Só o velho não foi. Não compareceu à sua própria vernissage.
Outra ocasião, ele foi homenageado com o prêmio Ângelo Agostini. Eu costumava almoçar diariamente na casa dos meus pais, mas até aquele dia, não tínhamos (eu, meus irmãos e minha mãe) ainda conseguido persuadí-lo a comparecer à entrega do troféu.
Resolvi fazer uma última tentativa ainda à noitinha e rumei para a casa dos velhos. Estava decidido; se ele fosse, eu iria! E toma conversa daqui, toma conversa dali, "porquê você precisa ir, porquê e importante", e minha mãe fazia os mais ingentes esforços, e o velho nada! Todos prontos, quase na hora de sair, minha mãe vira-se para o velho e em tom de intimação:
-Então, Messias, você vai ou não?
-Não, eu não vou, vou ficar por aqui mesmo... E virando-se para mim:
-Você fica comigo, Daniel?
Eu ficaria com toda certeza. Quem sabe se na mesma velha e acolhedora casa onde muitos anos atrás acontecera um momento mágico, onde uma criança-quase-homem despertou não só para a arte, mas também para a vida, quem sabe se aquela noite tão especial não se repetiria com outra lição grandiosa de vida?
-Claro pai, eu vou ficar...
-Obrigado, "filo".
O pai esperou que a mãe e os irmãos fossem embora para correr em direção ao seu esconderijo, o seu pequeno estúdio que ficava em uma edícula no fundo do quintal da casa. De lá, ele vinha feliz como uma criança, olhos brilhando, trazendo uma garrafa de “Chateau Duvalier”, seu vinho predileto. Aliás, qualquer vinho para ele, era o seu predileto. Sorver uma boa dose da bebida sempre foi um hábito quase que religioso e ele, já aposentado, não conseguia começar seu trabalho de pintura sem “esquentar um pouco as turbinas”. Era quase um ritual para ele e todos se conformavam com esse hábito, já que não conseguíamos mudá-lo. Quase todos. Minha mãe se preocupava muito com a situação, pois o “vício” já havia trazido aborrecimentos no passado. Naqueles tempos quando a carga de trabalho era grande e ele tinha que trabalhar dia e noite, ele costumava exagerar na dose. Era um estímulo e seus companheiros de noite, com certeza, o induziam a isto. Nada que pudesse classificá-lo como um ébrio, mas a velha não queria pagar para ver. E antes que acontecesse o pior e depois de esgotar todo o seu repertório de argumentos, ela desencavou um truque baixo. Às escondidas, ela ia adicionando diariamente água ao vinho, até que a bebida que o velho sorvia não passava de um sangria pálida e inofensiva.
Nessa noite, entretanto, não havia truques. A garrafa que o velho trazia estava ainda intacta e ele a abriu na minha presença. Bebi com ele um pequeno copo e percebi que aquela era uma boa ocasião para conhecer um pouco da sua vida, tema sobre o qual, aliás, ele não falava com freqüencia.
Arrisquei: -Como você começou a desenhar?
Fiz a pergunta e imediatamente me dei conta de uma coisa interessante: jamais perguntara ao velho alguma coisa do seu passado, fosse pessoal ou profissional, não sei, era um universo meio impenetrável, próprio, e é provável que ele não fosse jamais me revelar. Mas aquela era uma noite mágica e os deuses me ajudariam na tarefa que eu nutria secretamente: desvendar a vida do velho, conhecer os seus caminhos, seus percalços e desilusões, mas também saber das suas alegrias e triunfos.Quem sabe, um dia, ainda escreveria um livro sobre o tema...
- Comecei a desenhar em Maceió, quando criança ainda. Eu riscava em muros cobertos de musgos. Usava um pequeno pau como lápis e fazia caricaturas dos políticos da época, Pinheiro Machado ou Barão do Rio Branco e alguns artistas do cinema mudo. Quando minha mãe me pedia pra comprar pão, o pessoal da padaria me pedia pra desenhar qualquer dessas figuras sobre o papel de embrulho. Com isso, conseguia pão de graça, sempre na mesma padaria. Mais tarde já com 16 anos, resolvi que esta seria a minha profissão e passei a estudar com o Professor Lourenço Peixoto, com quem aprendi técnicas de carvão e óleo. Poucos meses depois, vi que não tinha mais nada a aprender com ele, saí de lá e organizei uma exposição com dois colegas Luiz Silva e Eurico Maciel, que seguiriam a carreira artística no Rio.
O velho sorveu mais uma boa dose do “Chateau”, como que esperando a minha aprovação para continuar adiante.
- Mas quando você começou a trabalhar pra valer mesmo, com salário e tudo? Perguntei-lhe.
- “Estávamos na época da Primeira Grande Guerra, meu pai tinha morrido e deixado órfãos seus sete filhos. Tinha que arrumar alguma economia para a casa. Meu primeiro emprego foi no Cine “Odeon”. Depois vieram outros cinemas da cidade, como o “Delícia” e o “Floriano”. Eu tinha uns 13 ou 14 anos e minha tarefa era desenhar enormes letras dos filmes que eram exibidos naqueles cinemas. Na verdade, os cartazes já vinham prontos com o filme, eu acrescentava o nome e palavras como “Breve”, “Amanhã”, etc. Naquela época, todos os cinemas tinham um palco e costumavam apresentar, nos intervalos, números de variedades como cantores, mágicos, humoristas. Logo, os proprietários perceberam que eu tinha talento para a caricatura e me convidaram a desenhar caricaturas dos políticos e artistas. Embora tímido, eu subia ao palco e fazia meu número, era aplaudido no meio de toda aquela algazarra. Era muito divertido, eu adorava, e ainda levava uns “cobres” pra velha.
Logo, porém, a situação financeira de casa se deteriorou e eu tive que buscar um trabalho que me desse uns trocados a mais. Naquela época, os circos eram muito populares na cidade, e eles precisavam de cartazistas. E pagavam mais que o cinema. Pintava leão, elefantes, focas, cavalos, o diabo a quatro. Só que a vida era bem dura. Primeiro, tinha que viajar para outras cidades e às vezes até outros estados com todo o circo. Depois, tinha trabalho braçal mesmo, como desmontar e montar as enormes lonas, alimentar os animais, carregar tudo nos vagões de trens.Todo o pessoal tinha que participar desse trabalho, sempre que o circo chegava ou partia de uma cidade. Eu era novo, gostava da aventura.” |
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Agora era a minha vez de provar mais um pouco do “néctar dos deuses”, como se referia o velho à sua bebida querida.
- “A cho que você não ficou muito tempo nesse trabalho, não?”
- “ Até que fiquei, sim. Viajei muito, desenhava demais, fazia anotações de pessoas, dos animais e objetos do ”natural”. Depois de um certo tempo viajando pra lá e prá cá, chegamos a uma pequena cidade lá do sul da Bahia. Lá, os dois sócios se desentenderam e resolveram fundar cada um o seu próprio circo. Eu já estava cansado daquela vida. Resolvi voltar para Maceió e para os meus cinemas. Encerrei minha vida no circo.
Senti que ele ainda se emocionava levemente com estas lembranças da adolescência. Resolvi cortar o clima com novas recordações.
“ – E então, como surgiu a idéia de vir para São Paulo?”....
| -Isso foi em 1927. Vim chamado pelo meu irmão Agnelo , que havia conseguido um emprego como redator no tradicional jornal “A Gazeta”. Cheguei em plena Revolução e consegui uns bicos em algumas grandes lojas da cidade. |
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. Comecei na Casa Capital , na Praça do Patriarca e depois na Casa Alemã, na rua Direita. Nenhuma dessas lojas existe mais. Eu trabalhava no próprio local onde os fregueses eram atendidos, fazendo cartazes com os preços das mercadorias. Agüentei dois anos este trabalho. Já me cansara de fazer cartazes. Não trocara o Norte pelo Sul pra ficar fazendo a mesma coisa. Além disso, a saudade da minha Maceió começava a me arder no peito. Até que um dia, a gota que transborda. |
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Cheguei para o trabalho e sentei-me à mesa onde desenhava os cartazes. Como de hábito, acendi meu cigarro e quando ia começar a usar o pincel, o chefe da seção, que havia mudado naquele dia, gritou para mim:... “ Você não pode fumar aqui, vá fumar lá no banheiro “....Eu fumava um cigarro após o outro, logo, concluí que não poderia mais trabalhar naquela loja. Vesti o paletó e fui embora, despedir-me do irmão Agnelo.
O enorme relógio de parede sobre a minha cabeça marcou as nove badaladas e presumi que àquele momento, meu irmão Denis e minha mãe estariam recebendo o prêmio. Eu ainda tinha algum tempo para as minhas perguntas. Aproveitei:
- “Mas e a Gazeta, como e quando você começou...?”
- “Pois é. Veja como são as coisas. Na mesma noite do incidente da “Casa Alemã”, fui visitar o irmão Agnelo. A essa época, ele estava muito bem no jornal além da sua carreira de poeta. Ele já tinha editado uns três livros e até mudara seu nome, para Judas Isgorogota. Eu achava engraçado isso. Quando ia visitá-lo na redação, ouvia o pessoal dizer, “Judas” pra cá, “Messias” pra lá, sei lá, me soava meio engraçado, justamente ele que se chamava Agnelo, nome tão doce e bonito. Mas, enfim, quando cheguei lá e contei a ele a história toda, ele ficou possesso. Queria me bater de tanta raiva que estava possuído. Não queria admitir a idéia de voltar, pois aquilo era passar um atestado de fracasso. Prometeu me arrumar um trabalho lá no jornal, eles estavam com um novo projeto de uma revista, quem sabe o velho Casper Líbero me daria uma oportunidade de participar. Para não parecer ingrato com o mano, prometi-lhe que voltaria, um dia. Ele aceitou, percebeu que eu estava determinado mesmo, e assim me deixou partir de volta no dia seguinte. Era 1929.
Na minha cidade natal, continuei a desenhar como nunca, estudava com mestres como Luís Silva e Eurico Maciel, pintava marinhas com Lourenço Peixoto, convivia com o mundo literário da cidade, era amigo do poeta Carlos Paurilio.
| Mas aquele pequeno círculo já não tinha muito para oferecer. Um dia, corria o ano de 1930, numa festa de premiação no Instituto de Belas Artes Rosalvo Ribeiro, observei a beleza encantadora de uma das suas alunas. Ela acabara de se levantar para ir até o palco receber medalha de ouro pela melhor escultura do ano. |
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Não sei se foram aqueles imensos olhos negros ou a sua pele alvíssima, ou aquele sorriso amplo e derramado, ou tudo isso junto, sei lá, só sei que nos casamos no ano seguinte. Resolvi voltar para a grande metrópole. Já éramos uma família e eu precisava ardentemente recursos para sobreviver, Voltei a trabalhar como cartazista e vitrinista e fazia pequenos bicos, ajudado pela Eurídice. Quando eclodiu a revolução de 32, desenhava a bandeira da cidade nos capacetes dos soldados paulistas enquanto ela completava a pintura. Minha filha Norma havia nascido, em julho daquele ano e minhas despesas aumentavam com o aumento da família.
E para a minha alegria, consegui um emprego de desenhista no jornal. Era o ano de 1933 e eles estavam editando uma nova revista, a “Gazeta Infantil”, que começaram a publicar em 1929. A redação do jornal, que
| ficava em um pequeno prédio lá na rua Líbero Badaró, contava com alguns poucos desenhistas, pois a maior parte das histórias vinha do exterior. Tinha o Brito, um português culto e afável, sempre com o seu charuto à boca e que viera de Paris, filho de família aristocrática de Portugal e se exilara no Brasil por motivos políticos. O Brito ficou conhecido à época pelo quadrinho que fazia na primeira página do jornal “A Gazeta”, sempre uma piada que ele mesmo criava e que se chamava “Semana a lápis”. Trabalhava lá também o Nino Borges, um traço muito bonito e que viria a criar alguns símbolos dos grandes times de futebol, como o periquito, o Santo, do São Paulo, etc. |
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Tornei-me grande amigo do Nino. Ah, tinha também o grande Belmonte, que não cheguei a conhecer pessoalmente e só vira de relance. Quando entrei no jornal ele já tinha saído. Comecei fazendo aquilo que
mais gostava, ilustrações e caricaturas de artistas do cinema. Observava o trabalho dos quadrinistas e treinava para fazer meu próprio trabalho. Nesse mesmo ano de 1933, criei o personagem Tutu e sua turma. Eu desenhava a história e o meu mano Judas fazia o texto, em forma de poesia rimada. Lia muito o Tico-Tico, que era sucesso na época, mas meu artista favorito era o J. Carlos. Os quadrinhos ainda não gozavam de muita popularidade naqueles tempos, então não havia muita coisa nova para se inspirar. Os americanos ainda não haviam chegado. Ilustrei uma infinidade de séries, como "O enigma do espectro de James Hull",
"Capitão Blood" , "A prisioneira do subterrâneo", "O Conde de Monte Cristo" , " Uma Aventura na África" , "Sherlock Holmes", "O Raio da Morte" e "A Conquista das Esmeraldas". Em 1934 fiz minha primeira história em quadrinhos para a revista, com personagem criado por mim, o “Pão-Duro”; o texto era preparado pelo meu irmão Judas, que era bom nisso
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. Com o tempo fui acrescentando outros personagens à família, e as últimas histórias já se chamavam “Pão Duro e Gibimba”. Foi um época de grande trabalho na revista, pois eu fazia de tudo: capa, histórias, publicidade, carta enigmática, caricaturas, tudo que fosse relacionado com desenho. Acho que essa foi a grande escola para mim.
.Depois, veio a Segunda Guerra e a revista parou de circular. “ |
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Olhei pela vidraça e vi que começava uma chuva fina. Achei que talvez o velho estivesse cansado e não quisesse mais continuar com essa rememoração. Mas como ele parecia bem disposto, apesar dos noventa anos recém comemorados, continuei:
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- “Isto foi o fim da “Gazeta Infantil?”
- Sim, infelizmente. Ela não voltaria a circular. O pessoal todo continuou trabalhando na casa, para o jornal “A Gazeta”, de grande tiragem na época. Passei a fazer ilustrações de datas comemorativas, como Sete de Setembro, Dia das Mães, etc. Durante esse tempo, aproveitei para pintar com técnica de óleo. Pintava muito, saia a campo para pintar paisagens, freqüentava sessões de modelo vivo, fazia retratos de encomenda, fazia aquarelas . Desenhava 24 horas por dia. Quando a guerra terminou, o mercado editorial e de quadrinhos havia mudado. Havia uma procura maior por esse tipo de material e a Gazeta, agora estabelecida em prédio novo na rua da Conceição (atual Cásper Líbero) resolveu criar um novo projeto de revista, mais voltada ao público adolescente, com histórias românticas, fotos de astros de Hollywood, letras de músicas e até quadrinhos. Tudo que pudesse agradar a esse público. Acho que foi o ano de 1948 em que nasceu, então, a “Gazeta Juvenil”. Foi um tempo de grandes realizações e variedade de trabalho. A redação da “Juvenil” ocupava o sétimo andar inteiro do prédio e reunia desenhistas, redatores, editores, diretores, enfim, todo mundo que participasse da revista efetivamente. À toda hora chegavam à redação grupo de estudantes, cantores nacionais e internacionais, atores, escritores, e as mais estranhas figuras que vinham nos visitar. Por alguns poucos anos, acho até que a redação da Gazeta Juvenil era o centro do universo cultural de São Paulo. Lá trabalhavam Cláudio de Souza, Lindenbergh Faria, Jayme Cortez, Brito, Zaé Júnior, Judas Isgorogota, Amleto Samarco, e free lancers que freqüentavam a redação, como o ilustrador Manoel Vitor Filho, o Manovic, Silas Roberg, Álvaro Moya, Reynaldo de Oliveira, e tantos outros que não me lembro agora.
Meu cargo tinha um nome pomposo, “chefe dos desenhistas”, mas eu nunca quis ser chefe de ninguém. Gostava era de desenhar e, na verdade, desenhava muito na Juvenil. Além dos quadrinhos, fazia ilustrações dos contos, capas, cartas enigmáticas, caricaturas e até algumas publicidades. Ilustrei séries nacionais como “Bascomb”, “O Trotamundos” “Perdidos no Igapó”, “Audaz, O Demolidor”, escritas por Judas Isgorogota, Jerônimo Monteiro Filho e Armando Brussolo, e também clássicos universais como “Os Três Mosqueteiros”, “Os Miseráveis”, “O Zorro”, "O Máscara de Ferro".
Apesar do árduo trabalho, lamentei quando “A Gazeta Juvenil” fechou. Parece que ela não agüentou a concorrência dos quadrinhos americanos, que chegavam com tudo e eram vendidos baratos. Em 1950 a Gazeta Juvenil deixou de existir e com ela, toda pretensão da empresa de editar novas revistas em quadrinhos. |
Lamentavelmente, aquele grupo se dispersou e somente eu e o Brito continuaram na empresa. O Brito continuou a fazer a sua piada de primeira página no jornal “A Gazeta” e eu passei a fazer a charge de esportes diária para o jornal “A Gazeta Esportiva”, além de fazer ilustrações para “A Gazeta”. Interessante é que, em algumas datas, o jornal costumava publicar uma poesia do meu irmão Judas na primeira página, com uma ilustração de minha autoria; ou seja, toda a primeira página do jornal ficava em família. As charges eram um trabalho divertido e do qual eu gostava muito de fazer. Tinha que desenhá-lo diariamente, e às vezes até três charges por dia. Se jogasse Corinthians e São Paulo, por exemplo, tinha que fazer uma charge com resultado favorável a cada um dos times e um para o caso de um empate! Em geral, não podia demorar mais que uma hora em cada charge e o jornal nunca ficou sem publicá-la por esse motivo".
- Você criou os personagens símbolos dos clubes?
O ruído do portão de ferro e murmúrio de vozes lá fora anunciaram a chegada do meu irmão e minha mãe e selaram o fim da minha entrevista. Tive o pressentimento que aquela havia sido a última oportunidade de conhecer um pouco da vida do pai e artista.
- Quando comecei a fazer as charges na "Esportiva" já existiam os símbolos dos principais personagens, o Santo, do São Paulo, o Mosqueteiro, do Corinthians e o Periquito do Palmeiras, todos criados pelo gênio incomparável de Nino Borges, hoje totalmente esquecido. Criei alguns de times que não existiam à época do Nino, ou que ainda não eram tão grandes assim. Lembro-me da Macaca da Ponte Preta, da Baleia do Santos e mais meia dúzia que me fogem à memória agora. Tentei dar uma ligeira modernização no traço original do Nino, que os novos tempos pediam. |
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Final
Alguns dias depois, meu pai armou seu cavalete em seu atelier e nele colocou uma tela em branco, pronto para começar um novo trabalho que ele devia ter em mente. Essa era a sua rotina desde que se aposentara, em 1975. Não chegou a iniciar a pintura, pois sentiu-se mal e foi internado às pressas. Eu o visitava diarlamente e pude perceber que, apesar de bastante debilitado, ele continuava a brincar com todos e, surpreendentemente, com um notável senso de humor. Chegou até a fazer alguns estudos a lápis de uma neta, da filha Norma e da nora Carol. |
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Era extremamente cordial e paciente com os visitantes. Não ouvi dele qualquer queixa ou palavra de ressentimento sobre os amigos ausentes, ou qualquer frustração sobre as coisas da vida, Acho que ele tinha plena consciência da missão cumprida. Seu humor, sempre irônico, tornara-se ultimamente incrivelmente ameno, cordial, quase infantil.
Perguntei a ele se estava tudo bem, se precisava de alguma coisa. |
- "Talvez uma garrafinha de vinho..." - Respondeu ele, piscando.
Ele ansiava por voltar a sua casa, no alto daquela ladeira, onde uma rede amiga, armada à sombra de um acolhedor caramanchão o esperava.
Lá, ele costumava passar suas tardes tranqüilas lendo seu jornal e brincando com os seus netos, que eram a sua grande alegria. Alternava este descanso dos justos com pequenas atividades no seu atelier. Arrumava e desarrumava seus livros e revistas, telas e desenhos, impressos, tubos de tinta e pincéis, fotos, enfim, tudo que encontrasse pela frente. Sua fúria predadora, embora bastante diminuída pelo tempo, vez ou outra, ainda ardia; E junto com uma revista velha ou uma anotação qualquer sem importância, lá se ia um original, registro valioso do seu período de fertilidade criativa.
Quem sabe, sua vontade fosse mesmo de não salvar estes testemunhos, não deixar marca sequer de sua obra. Claro, a família não concordava com esta atitude e tanto insistiu, que naquela manhã de outubro, ele até chegou a armar seu cavalete com uma tela em branco, preparou tintas e pincéis. Mas o destino, com um golpe baixo adiaria para sempre este seu projeto.
| Na manhã do dia 18 de Outubro de 1994 quando me preparava para levar a minha mãe ao hospital, recebi a notícia que meu pai estava morto. Tinha falecido de um ataque cardíaco fulminante - escolheu partir num momento exato em que nenhum dos filhos ou sua esposa querida, com quem vivera 64 anos, estavam por perto. Talvez para não causar dor maior ainda. Uma neta acompanhava-o no momento final. |
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Minha mãe guarda até hoje o cavalete com a tela em branco montada exatamente como ele a deixou, na esperança talvez, que ele volte um dia pra terminar alguma "manchinha".
Daniel Messias
dmessias@uol.com.br
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